Baixe o aplicativo para ver a sinopse completa da obra.
Ainda no ventre da minha mãe, fui possuído por uma doninha-amarela; ao nascer, eu era um só corpo e duas almas. Criança normal, ao vir ao mundo, primeiro chora. Eu, porém, nem tinha o cordão umbilical rompido e já sabia falar. Olhando para a parteira, pálida de terror, soltei a pergunta:
— Olha para mim: pareço gente ou pareço um deus?
A parteira soltou um grito estridente e desmaiou de susto.
E não era só isso de falar ao nascer; o mais arrepiante era que eu já viera ao mundo coberto por uma penugem amarelo-acastanhada. Meu corpo também não era o de um bebê rechonchudo e redondinho como os demais; eu tinha membros delgados, focinho afilado e feições de macaco. Com aquela pelagem amarela, eu parecia, na certa, uma doninha.
Tudo isso começou mais de meio ano antes. Minha família morava em Vale da Curva, uma aldeia de montanha tristemente famosa pela pobreza. Ali, todo mundo era pobre, e a principal fonte de sustento vinha do cultivo da terra. Com a minha casa não era diferente. Naquele dia, minha mãe subiu a montanha para levar comida ao meu pai. Ela já estava de quatro meses de gravidez quando, no caminho, encontrou uma doninha-amarela pedindo reconhecimento: perguntou à minha mãe se parecia gente ou divindade. A mãe da minha mãe — isto é, minha avó — era uma médium de uma linhagem espiritual, e desde criança já estava acostumada com essas coisas. Por isso, não lhe deu a menor importância; mandou-a embora sem rodeios e ainda a xingou de besta de pouca prática.
Depois disso, nada aconteceu. Até o dia em que nasci.
Ao ouvir o grito da pa